A invasão da Ucrânia por Rússia em 2022 marcou um ponto de inflexão na história europeia, forçando uma reavaliação profunda das políticas de segurança e defesa do continente. O conflito, que já dura anos, expôs a fragilidade da ordem internacional e levantou questões existenciais sobre a capacidade da Europa de resistir ou coexistir com uma Rússia agressiva sob o comando de Putin.Em dezembro, o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, alertou sobre a necessidade de preparação para
A invasão da Ucrânia por Rússia em 2022 marcou um ponto de inflexão na história europeia, forçando uma reavaliação profunda das políticas de segurança e defesa do continente. O conflito, que já dura anos, expôs a fragilidade da ordem internacional e levantou questões existenciais sobre a capacidade da Europa de resistir ou coexistir com uma Rússia agressiva sob o comando de Putin.
Em dezembro, o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, alertou sobre a necessidade de preparação para uma escala de guerra semelhante à enfrentada pelas gerações passadas. A antipatia do presidente Trump em relação à Europa, lançando dúvidas sobre as garantias de segurança dos EUA, intensificou ainda mais o dilema para os líderes europeus. A pressão dos EUA sobre Kiev para encerrar o conflito em termos favoráveis ao agressor, relegando a Europa a um papel secundário, ampliou a sensação de ruptura transatlântica.
Diante desse cenário, Wolfgang Ischinger, presidente da Conferência de Segurança de Munique, descreveu a ordem internacional como “sendo atualmente demolida com uma bola de demolição”. A Europa se vê espremida entre um aliado americano pouco confiável e uma China que disputa a supremacia tecnológica e militar com Washington. A resposta coletiva da Europa à guerra na Ucrânia se tornou um teste crucial de sua capacidade de influenciar decisões que afetam seu próprio destino.
A busca por soberania e defesa
Anna Rosenberg, chefe de geopolítica do Amundi Investment Institute, observou que a Europa carece de força geopolítica no mundo atual, especialmente em termos de poder militar e recursos naturais. No entanto, a Europa se destaca em parcerias, o que se refletiu na decisão dos membros da OTAN, em junho, de aumentar os gastos com defesa para 5% do PIB, atendendo a uma exigência de Trump. Essa medida demonstra o reconhecimento da necessidade urgente de reconstruir as forças armadas europeias, que foram negligenciadas após o fim da Guerra Fria.
Henna Virkkunen, vice-presidente executiva da União Europeia para Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, destacou que a Europa despertou e entrou em “modo de defesa em uma frente ampla”. A Finlândia e a Suécia, abandonando sua ???????????, aderiram à OTAN em 2023 e 2024, transformando o Mar Báltico em um teatro dominado pela aliança. O Reino Unido e a Noruega, embora fora da UE, também se aproximaram da Europa na postura comum contra a Rússia.
Apesar de Putin descartar como “histeria” a ideia de um confronto direto com o Ocidente, ataques cibernéticos recorrentes, incursões de drones e tentativas de incêndio criminoso evidenciam a disposição de Moscou de recorrer à guerra híbrida para desestabilizar populações civis. A guerra na Ucrânia está remodelando diversos aspectos das políticas europeias, exigindo que os líderes financeiros da UE se tornem especialistas em defesa para aprovar gastos de grande porte de forma responsável.
A autoridade moral na UE passou a recair sobre membros do Leste, como a Polônia e os países bálticos, que há muito alertavam sobre as intenções de Putin. A ampliação voltou à agenda do bloco, com a Ucrânia e a Moldávia recebendo um caminho para a adesão. Apesar de fissuras com líderes simpáticos a Putin, como na Hungria e na Eslováquia, o bloco tem conseguido manter a unidade para aprovar sanções à Rússia e pacotes de ajuda a Kiev.
Reconfiguração das relações e busca por um futuro soberano
A recusa da China em condenar Putin também se mostrou um obstáculo para a UE, que está reavaliando sua relação com Pequim. Antes da guerra, a Rússia era o maior fornecedor externo de petróleo e gás natural da Europa. Esses fluxos foram drasticamente reduzidos e substituídos por outras fontes, com um custo econômico significativo. A relação comercial, que sobreviveu à Guerra Fria, não será retomada facilmente e pode nunca mais voltar ao estado anterior à invasão.
Oana Lungescu, ex-porta-voz da OTAN, recorda o choque que sentiu ao saber, em 2021, que a Rússia pretendia tomar Kiev. A OTAN decidiu desclassificar informações de inteligência para dissuadir Putin, mas seus esforços foram em vão. Lungescu destaca que a Rússia permanece um projeto imperial expansionista, mas também não é invencível, como demonstrado pelos ucranianos.
A Ucrânia também revelou a natureza transformada da guerra moderna, com o uso de drones baratos para dominar o campo de batalha. O país se tornou um campo de testes para novas tecnologias militares, enquanto empresas europeias de defesa lutam para atender à demanda. Camille Grand, secretário-geral da ASD, observa que o desafio agora é a velocidade e a escala da produção.
A OTAN voltou a focar em sua missão de defesa coletiva, mesmo com os EUA questionando seus compromissos. Grand destaca que, em um cenário pós-cessar-fogo na Ucrânia, Washington espera que a Europa seja a primeira a responder a qualquer teste imposto pela Rússia. A determinação de Trump em impor um acordo de paz e reabilitar a Rússia é vista por muitos na Europa como uma ruptura permanente do elo transatlântico.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, lamentou o fim do “Ocidente normativo” e apontou para o paradoxo do papel da Alemanha como a melhor esperança da Europa de um futuro soberano. Apesar de sua força econômica, o modelo alemão enfrenta desafios em um mundo em transformação. Merz e sua coalizão apoiam firmemente a Ucrânia, mas enfrentam dificuldades internas, com o partido de extrema-direita AfD ganhando terreno nas pesquisas.
Apesar dos obstáculos, a determinação de Berlim em se rearmar é inegável, com investimentos maciços em defesa e a possibilidade de retorno do serviço militar obrigatório. As ações da Rheinmetall AG, fabricante de armas, dispararam nos últimos anos. Berlim está “criando um músculo militar gigantesco”, ajudando a Europa a se defender.
No entanto, o ganho de relevância global não é bem-vindo por todos na Alemanha. A AfD explora o sentimento pró-Moscou na antiga Alemanha Oriental, enquanto a militarização enfrenta resistência na antiga Alemanha Ocidental, onde o pacifismo ainda é forte. A sugestão de Merz de que a Bundeswehr possa ajudar a garantir uma zona desmilitarizada na Ucrânia causou choque em muitos, dada a história de atrocidades cometidas pela Alemanha na guerra.
Johann Wadephul, ministro das Relações Exteriores, evocou a experiência alemã pós-Primeira Guerra para explicar a oposição de Berlim a um mau acordo de paz para a Ucrânia. O Tratado de Versalhes, que impôs termos punitivos à Alemanha, contribuiu para a ascensão de Adolf Hitler. Wadephul usou esse paralelo ao questionar a China sobre por que a Ucrânia não poderia simplesmente entregar Donetsk à Rússia para resolver a guerra.
Um futuro incerto
Para Ischinger, antigas convicções de paz eterna na Europa, com a Rússia como parceira, foram expostas como “ilusões monumentais”. Com a Alemanha gastando pesado no rearmamento, a Europa está a caminho de se tornar “um ator militar relevante e substancial”, marcando uma mudança gigantesca em relação aos últimos 30 anos.
O futuro da Europa permanece incerto, mas uma coisa é clara: a guerra na Ucrânia transformou o continente de forma irreversível. Os líderes europeus estão reavaliando suas estratégias de defesa, buscando novas formas de coexistir com a Rússia e trabalhando para garantir um futuro soberano e seguro para seus cidadãos.
